Coyote vs. Acme: quando a repetição era a própria graça
Há personagens que pertencem tão profundamente à memória coletiva que qualquer tentativa de devolvê-los ao público precisa enfrentar algo maior do que a tarefa de criar uma nova história. O Coyote e o Papa-Léguas estão entre eles. Durante décadas, bastavam poucos segundos para reconhecer a situação: o Coyote elaboraria uma nova estratégia, recorreria a algum dispositivo da ACME, prepararia cuidadosamente a armadilha e acabaria vítima da própria engenhoca. O Papa-Léguas escaparia e a perseguição recomeçaria. Não havia aprendizado, evolução ou possibilidade real de vitória. E talvez fosse justamente essa repetição que tornasse aqueles desenhos tão divertidos.
Coyote vs. Acme parte dessa memória para construir uma narrativa bastante diferente. A transformação da relação entre o personagem e a fabricante de produtos aparentemente infalíveis em uma questão de responsabilidade comercial é uma premissa engenhosa. O Coyote compra, a ACME entrega, o dispositivo falha e ele sofre as consequências. Ainda assim, volta a comprar. Aquilo que durante décadas foi recebido como uma sucessão de desastres cômicos passa a ser observado pelas regras do mundo real. A proposta funciona porque encontra, na simplicidade dos desenhos, uma possibilidade que sempre esteve ali: o Coyote não é apenas um perseguidor fracassado, mas alguém incapaz de abandonar aquilo que sabe que dificilmente alcançará. A ACME deixa de ser apenas a fornecedora dos instrumentos absurdos que alimentavam cada gag e passa a responder por aquilo que comercializa, permitindo ao filme transformar uma sucessão de esquetes em uma narrativa de maior duração.
É nesse deslocamento que aparecem também as limitações da proposta. O universo original dos Looney Tunes possuía uma lógica inteiramente gráfica, na qual personagens, cenários e acontecimentos obedeciam às necessidades da imaginação. A simplicidade dos traços, a intensidade das cores, os cenários desenhados e a elasticidade física dos personagens não eram limitações técnicas, mas elementos fundamentais daquela linguagem. A evolução da computação gráfica permitiu que personagens animados passassem a dividir a tela com ambientes realistas e atores humanos, com um grau de sofisticação que hoje já não constitui novidade. O ganho técnico é inegável, mas a questão permanece: essa sofisticação consegue produzir o mesmo encantamento? Talvez não, porque nos desenhos antigos a realidade se adaptava à imaginação, enquanto agora é o personagem que precisa encontrar espaço dentro de um mundo que pretende parecer real.
Essa diferença se torna mais evidente quando se observa o mecanismo de humor que tornou o Coyote e o Papa-Léguas tão duradouros. O espectador não precisava descobrir o que aconteceria. Acompanhava a preparação, reconhecia a armadilha, esperava o desastre e, mesmo sabendo que o Coyote provavelmente sairia machucado, queria assistir novamente. Rever um episódio não significava reencontrar algo já consumido, mas participar outra vez de uma situação cujo desfecho conhecido fazia parte do prazer. A graça estava justamente nessa repetição: o Coyote voltava a tentar, a ACME continuava fornecendo seus produtos e o Papa-Léguas permanecia inalcançável. Se o personagem finalmente aprendesse a desistir, deixaria de ser o Coyote. Sua incapacidade de aprender não era uma falha narrativa, mas parte inseparável de sua identidade.
O longa compreende essa contradição e procura trabalhar dentro dela ao transformar a eterna perseguição em uma discussão sobre consumo, responsabilidade e insistência. É uma leitura inteligente, embora revele a dificuldade de transportar para uma narrativa contemporânea uma forma de humor que nunca precisou avançar para continuar funcionando. A nostalgia pode pedir que o passado seja reproduzido exatamente como era; a memória permite que ele seja revisitado e transformado, desde que se compreenda aquilo que o tornou especial. Coyote vs. Acme tenta realizar essa travessia e, em alguns momentos, aproxima esses personagens de uma nova geração. Em outros, evidencia o quanto determinadas formas de encantamento pertencem a uma época em que a imaginação do espectador completava aquilo que a tela não precisava mostrar.
Talvez seja essa a reflexão que permanece. Não se trata apenas de ver o Coyote novamente, mas de reencontrar uma maneira de rir que não dependia de novidade, tecnologia ou explicações. Bastava vê-lo preparar mais uma tentativa, acreditar que havia encontrado a solução definitiva e descobrir que, mais uma vez, a própria ACME havia preparado sua derrota. Durante muito tempo, rever não significava voltar ao passado. Significava ter novamente o prazer de encontrar aquilo que já sabíamos que aconteceria. Coyote vs. Acme oferece uma nova situação para personagens antigos, mas também nos faz perceber que a força deles talvez nunca tenha dependido de uma história que precisasse chegar a algum lugar. No caso do Coyote e do Papa-Léguas, talvez não fosse necessário fazê-los avançar. Bastava permitir que continuassem correndo.
Por Mauro Senna



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