Ultimatum - Entre a vertigem e a invenção
Assistir a Ultimatum, último texto de Domingos de
Oliveira, desperta uma expectativa que vai além da simples curiosidade diante
de uma nova montagem. Há autores cuja obra carrega uma assinatura tão
particular que o espectador ingressa na sala já predisposto a encontrar algo
que desafie o convencional. Foi exatamente essa sensação que acompanhou o
retorno à arena do Teatro SESC Copacabana, espaço que, por si só, já parece
convidar a uma relação mais direta entre cena e plateia. A surpresa começou
antes mesmo do espetáculo. A memória de uma arena austera e despojada deu lugar
a um ambiente acolhedor, cuidadosamente tratado em termos acústicos e visuais,
onde a disposição do público em torno da cena reforça uma sensação de
proximidade raramente alcançada nas salas convencionais.
As luzes se apagam e logo fica evidente que Ultimatum
não pretende conduzir o espectador por um caminho de compreensão imediata.
Domingos de Oliveira parece abandonar qualquer preocupação com estruturas
narrativas convencionais para se entregar a um fluxo de ideias, memórias,
ensaios, ficções e reflexões que se entrelaçam continuamente. O espetáculo não
se organiza em torno de uma história que avança rumo a uma conclusão, mas de um
pensamento em movimento, sujeito às mesmas interrupções, desvios e contradições
que caracterizam a própria experiência humana.
Há ecos do teatro do absurdo, momentos em que a lógica
parece deliberadamente suspensa, e passagens que flertam com um realismo
fantástico discreto, mas persistente. O resultado é uma dramaturgia que não se
oferece ao espectador de forma passiva. Ao contrário, exige participação ativa,
disponibilidade e, sobretudo, aceitação de que nem tudo será imediatamente
assimilado. A peça não parece interessada em entregar respostas. Seu interesse
está nas perguntas.
Nesse aspecto, a direção de Marcio Meirelles revela grande
sintonia com o universo criado por Domingos. Em vez de suavizar as ambiguidades
ou oferecer atalhos para a compreensão, a encenação parece ampliar as zonas de
incerteza presentes no texto. O espectador é convidado a atravessar o
espetáculo mais do que propriamente decifrá-lo. E essa escolha se mostra
coerente com a própria natureza da obra. Certas passagens produzem desconforto,
outras despertam associações inesperadas, e algumas permanecem em aberto mesmo
após o encerramento da apresentação.
Se a dramaturgia pode desafiar a apreensão imediata, a
realização cênica oferece um sólido ponto de apoio. O elenco demonstra um
domínio admirável da palavra, do gesto e da construção física dos personagens.
Independentemente da complexidade das situações apresentadas, os intérpretes
mantêm uma presença capaz de capturar a atenção do público. Há um rigor
expressivo que impede que a fragmentação se transforme em dispersão e que
sustenta o interesse mesmo nos momentos em que o pensamento parece escapar às
tentativas de organização racional.
A concepção visual acompanha essa mesma inteligência. O
cenário aposta em um minimalismo rigoroso, reduzindo os elementos ao essencial
para que a ação e os intérpretes ocupem o centro da experiência. Os figurinos
chamam atenção pela aparente simplicidade, construída com grande precisão
estética. Compartilham uma mesma tecitura visual, uma mesma delicadeza
cromática, como se tivessem sido concebidos para prolongar a identidade de cada
personagem sem jamais se impor sobre ela. A iluminação e a trilha sonora incidental
estabelecem uma presença contínua e discreta, funcionando como uma camada
permanente que acompanha a cena sem reivindicar protagonismo.
Há ainda um aspecto particularmente digno de registro. Em
uma época em que a amplificação vocal se tornou prática corrente mesmo em
espetáculos intimistas, Ultimatum aposta na projeção natural da voz.
Pode parecer um detalhe menor, mas não é. A opção reafirma a confiança no
ofício dos atores e fortalece a relação direta entre intérprete e espectador,
produzindo uma escuta mais orgânica e uma sensação de presença que dialoga com
a tradição das arenas teatrais.
Ao longo da apresentação, a impressão que se consolida é a
de que Domingos de Oliveira se permitiu divagar. Não como exercício de
arbitrariedade, mas como quem reconhece que a vida raramente obedece a uma
lógica perfeitamente ordenada. Os personagens parecem abandonar constantemente
os limites que deveriam contê-los. Histórias surgem dentro de histórias. A
criação passa a influenciar o criador. A ficção interfere na realidade. E o
próprio ato de escrever transforma-se em tema da obra.
Essa dinâmica produz uma curiosa aproximação com a
experiência cotidiana. Afinal, também fora do teatro as pessoas constroem
narrativas sobre si mesmas, revisam memórias, reinventam passados e tentam
encontrar coerência onde muitas vezes existe apenas acaso. A peça parece
compreender essa condição e transformá-la em matéria dramática.
Talvez por isso Ultimatum não seja uma obra que se
esgote ao apagar das luzes. Sua assimilação parece continuar depois do
espetáculo, quando imagens, diálogos e situações retornam à memória em busca de
novos sentidos. Nem tudo se esclarece. Nem tudo precisa se esclarecer.
O que permanece é a sensação de ter participado de um
devaneio conduzido com raro rigor artístico. Um espetáculo que talvez não
ofereça todas as chaves de acesso ao seu universo, mas que recompensa o
espectador pela inteligência de sua realização, pela qualidade de sua encenação
e pela confiança depositada na capacidade do público de conviver com a
complexidade.
Mais do que respostas, Ultimatum deixa uma mente em
movimento. E essa talvez seja uma de suas maiores virtudes.
Por Mauro Senna



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