Toy Story 5: As Coisas que Continuam Conosco

 

Toy Story 5 chega aos cinemas carregando um fardo que poucas franquias na história da animação precisaram carregar: justificar a própria existência. Não se trata apenas de encontrar uma nova aventura para Woody, Buzz Lightyear e seus companheiros. A questão é mais profunda, quase filosófica. Como continuar uma história cuja maior virtude sempre foi compreender o valor dos finais?

 

Essa é uma pergunta que acompanha a franquia desde Toy Story 3. A despedida de Andy não representava apenas o encerramento de um ciclo narrativo. Era um rito de passagem. Aquele último olhar lançado para Woody continha uma verdade universal: algumas coisas que amamos não foram feitas para permanecer conosco para sempre.

 

Toy Story 4 compreendeu isso com surpreendente maturidade. Depois de uma vida inteira definida pelo olhar de uma criança, Woody precisou descobrir quem era quando ninguém mais o chamava de brinquedo favorito. A jornada deixou de ser sobre pertencimento e passou a ser sobre identidade. Não era mais uma história sobre servir. Era uma história sobre existir.

 

Agora surge Toy Story 5.

 

E, pela primeira vez, a pergunta não parece direcionada aos personagens.

 

Ela parece direcionada à própria franquia.

Durante três décadas, Toy Story falou sobre brinquedos. Mas apenas na superfície. Porque, no fundo, sempre falou sobre algo muito maior: a relação humana com aquilo que escolhemos amar.

Woody nunca foi apenas um boneco de pano.

 

Buzz nunca foi apenas um astronauta de plástico.

Jessie nunca foi apenas uma boneca esquecida.

 

Eles são representações de tudo aquilo que, em algum momento, ocupou um lugar central em nossas vidas e, inevitavelmente, precisou encontrar um novo significado quando o tempo seguiu adiante.

 

Essa talvez seja a grande força da franquia.

 

Ela nunca tratou de brinquedos.

 

Tratou de vínculos.

 

De pertencimento.

 

De memória.

 

De perda.

 

De afeto.

 

De despedidas.

 

E agora, diante da ascensão de novas tecnologias e da presença de personagens como Lilypad, Toy Story encontra uma nova camada para seu tema mais antigo. O conflito entre brinquedos tradicionais e dispositivos eletrônicos não é apenas uma disputa por atenção. É uma reflexão sobre a velocidade com que o desejo humano se desloca de um objeto para outro, de uma novidade para a seguinte, de uma geração para outra.

 

Os brinquedos sempre tiveram medo de serem esquecidos por uma criança.

 

Agora podem descobrir algo ainda mais difícil.

 

Podem continuar sendo lembrados e, ainda assim, deixar de ser necessários.

 

Existe uma tristeza silenciosa nessa ideia.

 

O esquecimento oferece encerramento.

 

A lembrança sem função cria uma espécie de limbo afetivo.

 

E talvez seja exatamente aí que Toy Story 5 encontre sua justificativa mais legítima.

 

Não para provar que Woody ainda é o mesmo herói.

Nem para convencer o público de que a franquia continua jovem.

 

Mas para reconhecer que a passagem do tempo atinge não apenas as crianças, mas também aquilo que elas amam.

A ironia é inevitável.

 

Durante décadas, Toy Story ensinou que amar significa aceitar a mudança.

 

Agora a própria franquia parece obrigada a demonstrar que aprendeu a lição que ensinou.

 

Porque existe uma diferença entre revisitar personagens que ainda possuem algo novo a revelar e mantê-los vivos apenas porque continuam vendendo ingressos, produtos e nostalgia.

 

A fronteira entre arte e preservação comercial sempre foi delicada. E poucas vezes ela pareceu tão evidente quanto aqui.

 

Por outro lado, seria intelectualmente preguiçoso concluir que toda continuação é um erro.

 

O cinema está repleto de sequências que encontraram novas camadas em personagens aparentemente concluídos.

 

A questão nunca foi quantos filmes existem.

 

A questão sempre foi se ainda existe uma nova verdade humana escondida dentro deles.

 

E talvez Toy Story 5 tenha encontrado uma.

 

Não a respeito dos brinquedos.

 

Mas a respeito de nós.

 

Ao longo da vida, acumulamos objetos, memórias, músicas, fotografias, amizades, amores e lugares que deixam de ocupar o centro da nossa existência. Eles perdem função. Deixam de ser indispensáveis. São substituídos por novidades, tecnologias e prioridades diferentes.

 

Mas isso não significa que percam importância.

 

Talvez essa seja a pergunta mais poderosa que a franquia já formulou.

 

O que acontece com aquilo que amamos quando deixamos de precisar dele?

 

A resposta não está em Woody.

 

Nem em Buzz.

 

Nem em Lilypad.

 

Está na maneira como cada espectador responde a essa pergunta dentro de si.

 

Porque algumas coisas deixam de ser necessárias.

 

Mas nunca deixam de ser importantes.

 

E talvez seja por isso que Toy Story continua existindo.

 

Não para falar sobre brinquedos.

Mas para lembrar que a vida inteira é feita de coisas que um dia possuímos e que, de alguma forma, continuam nos possuindo muito depois.

 

Por Mauro Senna 


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