Querida Mamãe

Entrar na sala para assistir a Querida Mamãe significava, antes de tudo, confiar em três nomes. De um lado, a dramaturgia de Maria Adelaide Amaral, autora que há décadas compreende como poucos as delicadas engrenagens das relações humanas. Do outro, a presença de Nívea Maria e Regiane Alves, intérpretes cuja trajetória desperta interesse imediato e justifica, por si só, a ida ao teatro.

O espetáculo não procura surpreender. Tampouco parece interessado em reinventar o drama familiar. Sua força nasce justamente do contrário. Maria Adelaide constrói uma história que o público reconhece quase instantaneamente. Mesmo quando os acontecimentos não reproduzem experiências pessoais específicas, as emoções em cena soam familiares. Os conflitos, as cobranças, os ressentimentos, as culpas e as tentativas frustradas de aproximação pertencem a um repertório afetivo compartilhado por diferentes gerações.

Embora centrada na relação entre mãe e filha, a peça ultrapassa essa configuração particular. O que se vê em cena poderia assumir outras formas e outros vínculos. A tensão entre quem acredita saber o caminho e quem deseja encontrá-lo por conta própria atravessa inúmeras relações humanas. Mães e filhas apenas oferecem à autora um terreno especialmente fértil para investigar essa disputa silenciosa entre cuidado e controle, proteção e autonomia, afeto e ressentimento.

Talvez por isso a plateia responda de maneira tão imediata ao que acontece no palco. Em muitos momentos, o riso surge menos da comicidade das falas do que do reconhecimento provocado por elas. Certas expressões, certos conflitos e determinadas situações parecem funcionar como pequenas válvulas de escape para emoções que permanecem armazenadas na memória dos espectadores. O humor aparece, mas quase sempre acompanhado de uma camada de desconforto que o torna mais complexo do que uma simples reação espontânea.

A grande qualidade da dramaturgia está em não transformar nenhuma das personagens em depositária exclusiva da razão. Ruth e Helô não representam polos opostos de uma disputa moral. Ambas carregam suas fragilidades, seus equívocos e suas limitações emocionais. A mãe acredita estar protegendo. A filha acredita estar se libertando. Nenhuma das duas está inteiramente errada. Nenhuma das duas está completamente certa.

Nesse terreno delicado, Nívea Maria encontra o equilíbrio necessário para construir uma personagem que poderia facilmente resvalar para a caricatura. Sua Ruth carrega o peso de uma geração moldada por valores rígidos e por uma compreensão do amor frequentemente associada à renúncia. A atriz permite que a dureza da personagem revele suas fissuras, tornando visível uma mulher que, em muitos momentos, parece tão aprisionada por suas convicções quanto protegida por elas.

Regiane Alves responde à altura desse desafio. Sua Helô evita o lugar confortável da vítima contemporânea diante de uma figura materna ultrapassada. A atriz compreende que a independência também produz cegueiras, impaciências e formas particulares de egoísmo. Sua interpretação cresce justamente quando abandona qualquer necessidade de convencer o público e se permite habitar as contradições da personagem.

A direção de Pedro Neschling demonstra inteligência ao não transformar o espetáculo em uma sucessão de explosões emocionais. Há um cuidado evidente em preservar os silêncios e permitir que eles participem da construção dramática. Muitas vezes, aquilo que permanece não dito ocupa mais espaço do que as palavras efetivamente pronunciadas.

Os demais elementos da encenação cumprem sua função com discrição. A cenografia não busca reproduzir um ambiente doméstico de maneira convencional. Sua composição, marcada por elementos têxteis suspensos, sugere sucessivas camadas a serem reveladas, como cortinas que se abrem gradualmente para expor aquilo que permaneceu oculto entre mãe e filha ao longo dos anos. Trata-se de uma proposta visual coerente com a dramaturgia, ainda que sua simbologia talvez não se apresente de forma imediatamente perceptível para todos os espectadores. Ainda assim, a força do texto e das interpretações é tamanha que a peça provavelmente sobreviveria mesmo em condições cenográficas muito mais despojadas. Em diversos momentos, a impressão é a de que bastariam a dramaturgia e o talento das atrizes para sustentar integralmente a experiência.

Essa percepção não diminui o trabalho da equipe criativa. Ao contrário. Apenas evidencia a solidez de uma dramaturgia que encontra sua potência principal na palavra e nas relações humanas que ela revela.

Querida Mamãe permanece atual porque fala de uma herança que atravessa famílias, épocas e transformações sociais. Não a herança material, mas aquela composta por expectativas, medos, culpas, frustrações e formas de amar aprendidas ao longo da vida. São marcas transmitidas entre gerações nem sempre por escolha, muitas vezes por repetição.

Ao final, o espetáculo não oferece soluções nem absolvições. O que permanece é o reconhecimento de que os vínculos familiares raramente são simples. Sobrevivem às mágoas, aos desencontros e às diferenças porque estão enraizados em algo mais profundo do que a razão. Talvez seja justamente essa familiaridade que torne a peça tão eficaz. Ela não revela um mundo desconhecido ao espectador. Apenas ilumina, com honestidade e sensibilidade, um território que quase todos já visitaram alguma vez na vida.

por mauro senna

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