Disney On Ice e o futuro do encantamento

 

Poucas marcas culturais atravessaram tantas gerações com a força simbólica da Disney. Dos primeiros clássicos animados às atuais franquias globais, seu maior patrimônio nunca esteve apenas nos personagens, mas na capacidade de transformar fantasia em memória coletiva.

Na Farmasi Arena, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Disney On Ice – Festa em Família, apresentado em curta temporada entre 17 e 21 de junho de 2026, encontra a escala necessária para transformar personagens e narrativas da Disney numa experiência compartilhada por milhares de espectadores. Mais do que um espetáculo sobre o gelo, trata-se de um encontro entre gerações que carregam diferentes formas de pertencimento a esse universo construído ao longo de quase um século.
 
A produção aposta em personagens reconhecidos instantaneamente pelo público contemporâneo. Frozen e Encanto ocupam o centro da narrativa, cercados por aparições de outras figuras populares do catálogo Disney. A escolha é compreensível. São histórias que já chegam ao espetáculo acompanhadas por uma poderosa carga afetiva construída nas salas de cinema, nas plataformas de streaming, nos brinquedos, nos livros e nas telas domésticas.
 
 Talvez esteja justamente aí o principal desafio da montagem.
 
Durante décadas, o simples fato de ver personagens da Disney materializados diante do público era suficiente para provocar assombro. A fantasia abandonava o espaço da imaginação para ganhar presença física. Havia algo de extraordinário nesse encontro entre o mundo imaginado e sua materialização diante dos olhos.
 
A própria existência de Disney On Ice ajuda a compreender essa trajetória. Nas décadas de 1960 e 1970, espetáculos como Holiday On Ice já lotavam arenas ao redor do mundo com grandes produções de patinação artística, nas quais a habilidade técnica dos atletas era o principal elemento de atração. Paralelamente, a Disney percorria ginásios e estádios com Disney On Parade, levando personagens dos clássicos animados para apresentações ao vivo que aproximavam o público de um universo até então restrito às telas de cinema e televisão. De certa forma, Disney On Ice surgiu da convergência dessas duas tradições: a excelência da patinação sobre o gelo e o poder afetivo dos personagens Disney. Ao longo das décadas, a fórmula foi sendo atualizada por novas narrativas, tecnologias de iluminação, recursos cênicos e transformações do próprio imaginário infantil.
 
Hoje, porém, a relação entre fantasia e realidade tornou-se mais complexa.
 
As novas gerações cresceram cercadas por recursos visuais que transformaram o extraordinário em rotina. Telas de altíssima definição, projeções digitais, videogames imersivos e experiências audiovisuais cada vez mais sofisticadas alteraram profundamente a maneira como crianças e adultos se relacionam com a narrativa visual. O impossível tornou-se cotidiano.
 
Nesse contexto, surge uma questão inevitável: o que ainda torna uma experiência ao vivo verdadeiramente inesquecível?
 
Disney On Ice responde a essa pergunta apostando na familiaridade. Em muitos momentos, o espetáculo se aproxima da reconstrução das histórias originais, reproduzindo diálogos, situações dramáticas e passagens narrativas reconhecíveis pelo público. A patinação permanece tecnicamente competente e visualmente agradável, mas frequentemente divide protagonismo com a necessidade de recontar histórias que já habitam o imaginário dos espectadores. 
 

A opção é legítima, mas suscita uma reflexão interessante. Durante muito tempo, a fantasia dependia da participação ativa da imaginação. Livros ilustrados, discos narrados e animações relativamente simples ofereciam apenas parte da experiência. O restante era preenchido pelo olhar de quem assistia, lia ou escutava.

Hoje a tecnologia permite mostrar praticamente tudo. Mas mostrar tudo nem sempre significa encantar mais.

Existe uma diferença importante entre reconhecimento e descoberta. Entre compreender uma história e ser surpreendido por ela. Entre recordar personagens conhecidos e viver uma experiência capaz de permanecer viva na memória muito tempo depois do encerramento do espetáculo.

Sob esse aspecto, Festa em Família talvez revele uma transformação mais ampla do próprio entretenimento contemporâneo. A experiência não acontece apenas sobre o gelo. Ela se constrói também na convivência entre pais, filhos, avós e crianças que compartilham referências comuns, ainda que por motivos diferentes. O espetáculo torna-se um espaço de encontro entre gerações, unidas por personagens que atravessaram décadas sem perder sua capacidade de mobilizar afetos.
 
Nesse sentido, o subtítulo Festa em Família talvez funcione menos como novidade e mais como reafirmação de uma vocação histórica. Muito antes da criação de Disney On Ice, crianças já chegavam acompanhadas por pais e avós para assistir tanto às apresentações de Holiday On Ice quanto às produções de Disney On Parade. A família sempre esteve presente, não apenas como tema recorrente das histórias Disney, mas também como parte essencial da experiência de compartilhá-las.
 
E talvez seja justamente essa dimensão coletiva que explique a permanência de Disney On Ice.

Ao final, permanece uma reflexão que ultrapassa os limites da própria produção.

Num mundo em que a fantasia se tornou permanentemente acessível através das telas, qual será o próximo passo para que uma experiência ao vivo continue produzindo encantamento duradouro?

A resposta talvez não esteja em cenários maiores, projeções mais sofisticadas ou tecnologias mais impressionantes. Talvez esteja justamente naquilo que sempre definiu as experiências artísticas capazes de sobreviver ao tempo: a criação de memórias que permanecem quando o espetáculo termina.
 
Porque apresentações chegam ao fim.
 
Mas o verdadeiro encantamento continua sendo aquele que escolhe ficar.
 
Por Mauro Senna
Fotos: MSenna 






 



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