Dia D
Existe uma diferença fundamental entre contar uma história sobre um acontecimento extraordinário e compreender o impacto desse acontecimento sobre aqueles que o vivenciam. O cinema, quando alcança seus momentos mais memoráveis, raramente se sustenta apenas pela grandiosidade de seus eventos. O que permanece na memória não são os fatos em si, mas a forma como eles alteram afetos, relações, escolhas e destinos. É justamente nessa dimensão que Dia D encontra sua principal fragilidade.
A premissa é irresistível. Um cientista foge de uma organização secreta que, durante décadas, ocultou evidências da existência de vida extraterrestre. Em suas mãos repousa uma revelação capaz de alterar para sempre a compreensão da humanidade sobre si mesma. Trata-se de uma ideia naturalmente fascinante, não apenas por envolver conspirações governamentais e visitantes de outros mundos, mas porque toca uma das perguntas mais antigas da civilização: estamos sozinhos no universo?
O problema é que o filme parece menos interessado nessa pergunta do que o próprio espectador.
Desde os primeiros minutos, a narrativa estabelece uma dinâmica de perseguição permanente. Personagens correm, escondem-se, escapam, são rastreados e voltam a fugir. O movimento nunca cessa. Há deslocamentos constantes, reviravoltas e situações de perigo que mantêm a trama em permanente estado de urgência. Entretanto, à medida que a história avança, surge a sensação de que toda essa movimentação funciona como substituição de algo mais importante.
O filme fala muito.
Fala rápido.
Fala sem parar.
Os diálogos se acumulam em velocidade quase vertiginosa, frequentemente sacrificando a contemplação em favor da exposição. Em diversos momentos, a narrativa parece tão preocupada em explicar seus mecanismos que esquece de permitir que o espectador absorva suas consequências. O resultado é curioso: uma obra sobre a maior revelação imaginável que raramente encontra tempo para o assombro.
Daniel Kellner, interpretado por Josh O'Connor, ocupa o centro da narrativa com competência. Sabemos o que precisa fazer. Sabemos de quem foge. Sabemos quais segredos carrega. Mas sabemos muito pouco sobre aquilo que sente. O mesmo acontece com Margaret Fairchild, vivida por Emily Blunt, cuja conexão especial com os visitantes extraterrestres sugere complexidades emocionais que o roteiro apenas tangencia. Jane, interpretada por Eve Hewson, e Hugo Wakefield, vivido por Colman Domingo, também permanecem presos a funções dramáticas mais do que a experiências humanas plenamente desenvolvidas.
Nenhum desses desempenhos compromete o filme. O problema não está nos atores. Está na maneira como a narrativa os utiliza.
Os personagens existem para movimentar a trama quando deveriam ser a razão de sua existência.
Essa inversão torna-se ainda mais evidente quando observamos a relação do filme com seu próprio tema central. Ao longo de décadas, o cinema produziu inúmeras narrativas sobre visitantes extraterrestres. Algumas exploraram o medo. Outras buscaram o encantamento. Algumas encontraram nos alienígenas metáforas para discutir infância, solidão, espiritualidade ou pertencimento.
Steven Spielberg foi um dos cineastas que melhor compreendeu esse princípio.
Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o extraordinário transformava a vida de pessoas comuns. Em E.T., a ficção científica servia como caminho para falar sobre amizade, ausência e amor. Os extraterrestres nunca foram o verdadeiro tema. Eram a porta de entrada para experiências profundamente humanas.
Em Dia D, essa porta permanece estranhamente fechada.
Os alienígenas estão sempre próximos, sempre sugeridos, sempre prometidos, mas raramente vivenciados. A revelação de sua existência é tratada como um segredo valioso, porém quase nunca como um acontecimento capaz de alterar a percepção humana sobre si mesma. Poucas vezes o roteiro parece interessado em perguntar como essa descoberta afetaria crenças, afetos, medos ou esperanças.
O filme corre tanto que não encontra tempo para refletir.
Existe uma diferença importante entre mistério e omissão.
O mistério desperta curiosidade porque sugere profundidade.
A omissão frustra porque sugere vazio.
Em diversos momentos, Dia D aproxima-se mais da segunda condição.
Isso não significa que o filme seja desprovido de qualidades. A direção mantém ritmo firme. Algumas sequências demonstram eficiência narrativa. Há momentos visualmente elegantes. O acabamento técnico é irrepreensível. A produção possui escala, ambição e profissionalismo compatíveis com a assinatura de Spielberg.
Mas competência não é necessariamente sinônimo de impacto.
O espectador pode admirar a execução de uma obra e, ainda assim, sair dela emocionalmente intocado.
É exatamente essa sensação que permanece após os créditos finais.
A impressão não é de fracasso absoluto. Tampouco de desperdício completo. O sentimento dominante é o de uma oportunidade parcialmente realizada.
Talvez a maior questão levantada por Dia D seja justamente aquilo que decide não explorar. Toda descoberta extraordinária carrega consigo uma consequência íntima. O universo só adquire significado quando atravessa a experiência humana. Uma revelação cósmica só se torna verdadeiramente fascinante quando modifica a forma como alguém ama, teme, acredita, sonha ou compreende sua própria existência.
O filme parece esquecer esse princípio em diversos momentos.
E quando isso acontece, algo essencial se perde.
A grande ironia de Dia D é que um filme sobre a ampliação dos horizontes humanos acaba parecendo surpreendentemente pequeno em sua investigação das pessoas.
Ao final, permanece a sensação de que a história estava diante de uma porta gigantesca, capaz de conduzir a reflexões filosóficas, emocionais e existenciais de enorme alcance. Em vez de atravessá-la, escolheu permanecer no corredor.
E, para um diretor que já nos ensinou tantas vezes a olhar para o céu com espanto, essa talvez seja a maior decepção.
Por Mauro Senna



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