Uma Vida de Amizade
Uma Vida de Amizade, em cartaz no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, se apresenta envolta por uma atmosfera de reconhecimento afetivo. A presença de Sílvia Pfeifer nos palcos funciona, por si só, como elemento de atração para uma plateia formada majoritariamente por espectadores que acompanharam sua trajetória televisiva ao longo de décadas. Ao lado de Adriana Garambone e Helena Fernandes, o espetáculo compreende essa dimensão desde a primeira entrada em cena, construída quase como um manifesto silencioso de permanência.
Escrita por Gustavo Pinheiro e dirigida por Fernando Philbert, a peça se constrói sobre uma ausência: o apartamento já não existe, Paris tampouco, e ainda assim tudo em cena depende da tentativa de ressuscitar ambos. O que se vê não é apenas um reencontro entre amigas, mas um mecanismo delicado de resistência contra o apagamento. O teatro surge aqui como espaço de permanência simbólica, onde corpos, memórias e afetos tentam sobreviver ao avanço do tempo.
A direção evita transformar a nostalgia em fetiche visual. Embora a dramaturgia convoque uma Paris dos anos 1990, a cidade aparece fragmentada em gestos, pausas e lembranças, mais evocada do que reproduzida. O cenário concebido por Natália Lana funciona como extensão desse universo afetivo. Sofás, luminárias pendentes e objetos cuidadosamente organizados criam um ambiente de estar sofisticado e acolhedor, sustentado pela iluminação de Vilmar Olos, que investe em tonalidades quentes e atmosferas de intimidade sem excessos. Tudo parece concebido menos para impor significado do que para envolver o espectador numa sensação confortável de reconhecimento.
As três atrizes entram em cena conscientes do peso simbólico que carregam. Há vaidade, naturalmente, mas uma vaidade compreendida aqui menos como frivolidade e mais como afirmação de presença. O espetáculo entende que existir em cena, sobretudo para mulheres maduras cuja imagem pública atravessou décadas de televisão, também é um gesto político. O envelhecimento não é ocultado nem violentamente corrigido. Ao contrário, há algo de profundamente digno na forma como essas atrizes preservam seus rostos, seus corpos e suas identidades sem recorrer à descaracterização estética tão recorrente na indústria da imagem contemporânea. Nesse aspecto, o visagismo de Cláudio Belizário atua com inteligência ao respeitar os traços individuais e permitir que o tempo permaneça visível sem transformar maturidade em caricatura.
Os figurinos assinados por Karen Brusttolin acompanham essa proposta com elegância discreta. As escolhas visuais reforçam personalidade e classe social sem disputar protagonismo com as atrizes, contribuindo para a naturalidade da encenação.
Ainda assim, a dramaturgia demora a encontrar densidade. Durante boa parte da montagem, o espetáculo se aproxima mais de uma conversa elegante entre amigas do que propriamente de um embate dramático consistente. A leveza inicial, sustentada por humor, lembranças e pequenas provocações, cria uma fluidez agradável, embora por vezes excessivamente confortável. Em determinados momentos, a sensação é de que o texto prefere circular em torno das personagens a realmente atravessá-las.
A personagem de Gilda domina o palco desde sua primeira entrada. Há algo profundamente teatral em sua obsessão por organizar o espaço antes da chegada das outras duas. Sílvia Pfeifer compreende que Gilda não arruma objetos; ela tenta impedir o colapso do tempo. Seus movimentos possuem precisão quase coreográfica, embora o corpo deixe escapar discretamente sinais de desgaste e fadiga. É justamente dessa contenção que nasce parte da força da interpretação.
Yasmin surge como contraponto rítmico. Sua energia nervosa, os toques constantes e a fala acelerada criam uma instabilidade emocional que impede a cena de se acomodar completamente. Adriana Garambone evita transformar a personagem numa caricatura expansiva. Sob o humor e a aparente leveza existe ansiedade, solidão e medo.
Renée concentra a dimensão mais áspera da peça. Seu olhar crítico dirigido às amigas jamais soa gratuito. Existe ali alguém que passou a vida tentando sobreviver emocionalmente através do controle. Helena Fernandes trabalha os silêncios com inteligência, permitindo que pequenas pausas revelem aquilo que o texto nem sempre explicita.
A trilha sonora de Rodrigo Penna reforça discretamente o caráter afetivo da montagem, funcionando mais como memória sensorial do que como comentário dramático direto. O espetáculo encontra sua camada mais interessante quando abandona a simples celebração da amizade feminina e se aproxima da percepção contemporânea sobre invisibilidade e desgaste afetivo. A peça compreende, ainda que de maneira discreta, que a sociedade não elimina mulheres maduras de forma explícita; ela apenas passa a não imaginá-las mais como protagonistas de desejo, movimento ou transformação.
Há momentos em que a linguagem se torna excessivamente consciente de seu próprio lirismo. Algumas frases parecem nascer prontas para permanecer na memória do público, antes mesmo de se consolidarem organicamente na cena. Ainda assim, o elenco sustenta a humanidade necessária para impedir que o espetáculo deslize completamente para a artificialidade.
O público deixa a sala visivelmente emocionado, não apenas pela peça em si, mas pela experiência de reencontro com figuras que ajudaram a construir parte de sua memória afetiva televisiva e teatral. Uma Vida de Amizade talvez não alcance toda a profundidade dramática que insinua possuir, mas encontra legitimidade na delicadeza com que aborda permanência, envelhecimento e reconhecimento mútuo.
Porque desaparecer sozinho talvez seja insuportável. E o teatro, como essas mulheres, segue existindo para adiar esse desaparecimento por mais uma noite.
Por Mauro Senna
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