Blue Note Rio: Eletrofunky - Jamiroquai Experience

 

A apresentação da banda Eletrofunky no Blue Note Rio com o espetáculo Jamiroquai Experience começa muito antes da primeira música. Começa na própria ideia de atravessar a Avenida Atlântica em direção a uma casa de shows instalada em plena Copacabana, cercada pela memória afetiva de uma cidade que, durante décadas, construiu parte da sua identidade noturna em torno da música ao vivo. É impossível não associar espaços como esse aos antigos piano bars, ao Bottles, ao Beco das Garrafas e a uma certa tradição boêmia carioca em que escutar música parecia exigir outro tipo de presença.

O Blue Note Rio dialoga com essa herança, embora pertença claramente a outro tempo. A fachada iluminada em azul se projeta sobre a calçada larga de pedras portuguesas desenhadas por Burle Marx, ainda que parcialmente escondida pelas mesas e guarda-sóis que transformam a entrada num espaço híbrido entre casa de espetáculo e operação gastronômica. Há glamour, sofisticação e uma tentativa evidente de criar atmosfera. Mas também existe a percepção de que, hoje, a experiência musical convive permanentemente com a lógica do consumo acelerado.

Essa sensação se torna ainda mais evidente no segundo andar da casa, onde garçons e garçonetes circulam com insistência constante entre as mesas compartilhadas enquanto o público tenta se acomodar. O serviço não atua como simples apoio da experiência artística. Em muitos momentos, disputa atenção com ela. Ainda assim, seria injusto reduzir o espaço apenas a essa dinâmica. O Blue Note preserva algo cada vez mais raro no Rio de Janeiro: a tentativa de manter viva a cultura da música ao vivo em ambiente intimista.

A música do Jamiroquai nunca dependeu apenas de refrões facilmente reconhecíveis. Ela se sustenta sobretudo na construção de atmosfera, no groove contínuo, nas linhas de baixo pulsantes e na fusão elegante entre funk, soul, jazz e música eletrônica. Mesmo para quem não acompanhou profundamente a trajetória da banda britânica, existe uma familiaridade quase involuntária em relação à sua sonoridade. Certas levadas, timbres e construções rítmicas parecem já fazer parte da paisagem sonora coletiva de quem atravessou os anos 1990 e 2000.

Sob a condução de Fernando Lima e Julio Mossil, a Eletrofunky compreende isso com inteligência. O espetáculo evita a caricatura comum a muitos tributos e aposta numa abordagem mais musical do que performática. Não há preocupação excessiva em imitar gestos ou transformar o palco numa reprodução literal do Jamiroquai original. O foco está na pulsação coletiva da banda, no rigor dos arranjos e na construção de um ambiente sonoro capaz de sustentar o espírito do acid jazz.

A formação paulista entra em cena com segurança. Bateria, guitarra, baixo, teclado, backing vocals e vocalista funcionam como organismo único, embora o baixo pareça assumir silenciosamente o eixo gravitacional da apresentação, como acontece em grande parte da própria obra do Jamiroquai. A sonoridade da casa também merece destaque. O Blue Note trabalha a acústica com evidente cuidado técnico, evitando reverberações excessivas e preservando clareza instrumental mesmo em volumes mais altos.

Pouco a pouco, o público acompanha o espetáculo não apenas com aplausos, mas fisicamente. Cabeças balançam, corpos acompanham os grooves ainda que sentados, letras são cantadas em coro em diferentes pontos da plateia. Existe ali uma memória coletiva ativada pela música. E talvez esse seja o maior mérito do projeto: demonstrar como o acid jazz continua produzindo conexão humana num tempo musical cada vez mais fragmentado por algoritmos, playlists descartáveis e consumo acelerado.

A escolha de Space Cowboy para o encerramento antes do bis sintetiza bem essa experiência. A versão apresentada pela Eletrofunky preserva o espírito da original sem se limitar à reprodução automática. Há atualização estética, respeito à obra e compreensão de que revisitar Jamiroquai exige mais do que copiar timbres conhecidos. Exige compreender o balanço, o espaço e a pulsação emocional daquele repertório.

Também chama atenção a forma como a apresentação se integra naturalmente ao imaginário carioca. O acid jazz, embora nascido de matrizes britânicas e norte-americanas, dialoga organicamente com a musicalidade urbana do Rio de Janeiro. O suingue, a pulsação rítmica e a sofisticação dançante encontram eco imediato numa cidade historicamente construída entre música, noite e encontro coletivo.

Ao final do espetáculo, enquanto o público organiza comandas e o fluxo da casa retoma sua lógica comercial, permanece uma sensação curiosa. A experiência talvez diga menos sobre nostalgia e mais sobre permanência. Certas sonoridades sobrevivem porque continuam capazes de provocar presença física, movimento e conexão real entre pessoas.

 

Por Mauro Senna

Fotos: MSenna 


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