“21” e “Piracema” do Grupo Corpo

 

A apresentação do Grupo Corpo no Teatro Multiplan, no VillageMall, no Rio de Janeiro, na noite de 9 de maio de 2026, encontrou uma casa lotada e um público bastante diverso, entre admiradores da companhia, convidados de patrocinadores e conhecidos dos bailarinos. O problema não estava nessa mistura, mas na dificuldade de parte da plateia em compreender o tipo de entrega que um espetáculo de dança exige. Ainda havia circulação pelos corredores após o fechamento das portas, taças de bebida cruzavam a penumbra da sala, embalagens eram abertas discretamente, celulares permaneciam acesos e cochichos resistiam aos primeiros acordes. Pequenos ruídos que talvez passem despercebidos em outros contextos, mas que, diante de um trabalho construído sobre música, movimento, silêncio e concentração, assumem outra dimensão. Assistir ao Grupo Corpo exige disponibilidade integral dos sentidos.

O Grupo Corpo não oferece ao público caminhos muito objetivos de interpretação. Não há personagens, narrativa linear ou imagens cênicas organizadas para explicar racionalmente o que acontece no palco. Tudo nasce da relação entre corpo, música e luz. Os títulos das obras e os breves textos do programa funcionam quase como pequenas pistas. O restante depende daquilo que cada espectador consegue construir internamente diante da movimentação. Talvez esteja aí uma das razões do fascínio provocado pela companhia. O abstrato nunca aparece como ornamento intelectual. Ele é a própria matéria da experiência.

Essa percepção atravessa 21 e Piracema de maneiras diferentes. Em nenhum momento o Grupo Corpo parece preocupado em oferecer respostas prontas ou significados totalmente decifráveis. Existe uma confiança rara na capacidade de o público sentir antes de compreender. E talvez parte do desconforto provocado pelas obras venha exatamente daí. Nem tudo se organiza para ser entendido imediatamente. Há momentos em que resta apenas acompanhar o fluxo da música, da luz e dos corpos, aceitando que a experiência nem sempre precisa se traduzir em explicação.

Criado originalmente em 1992, 21 impressiona pela precisão da movimentação concebida por Rodrigo Pederneiras. A trilha de Marco Antônio Guimarães, em parceria com o Uakti, estabelece estruturas rítmicas rigorosas sem transformar o movimento numa engrenagem mecânica. Os bailarinos desenham diagonais, linhas e espirais com controle técnico impressionante, mas preservam organicidade suficiente para impedir que a coreografia se torne fria. O corpo oscila, respira, desequilibra-se e se recompõe continuamente.

Existe uma musicalidade muito particular na forma como o Grupo Corpo ocupa o palco. Ela não nasce de referências folclóricas explícitas nem de qualquer tentativa ilustrativa de brasilidade. Surge na síncope dos movimentos, na elasticidade dos quadris, na relação dos pés com o chão e na maneira como cada gesto parece nascer da própria pulsação musical.

Em 21, Rodrigo Pederneiras consolida uma linguagem coreográfica difícil de enquadrar em categorias convencionais. O espetáculo não parece preocupado em demonstrar virtuosismo técnico, embora ele esteja presente o tempo inteiro. O interesse maior está na construção de uma partitura corporal capaz de transformar rigor em fluidez.

Piracema, criado para celebrar os cinquenta anos da companhia, desloca essa pesquisa para outro estado emocional. A entrada de Cassi Abranches no processo criativo altera a dinâmica da cena sem romper com a identidade do Grupo Corpo. Sua movimentação é mais expansiva, impulsiva e coletiva. Os corpos se agrupam, se dispersam e voltam a se encontrar continuamente, como se obedecessem a correntes invisíveis.

A trilha de Clarice Assad acompanha esse deslocamento com inteligência sensorial. Passa por sonoridades tribais, eletrônicas e sinfônicas sem buscar estabilidade permanente. Existe uma sensação contínua de travessia, como se o espetáculo recusasse qualquer acomodação.

Também chama atenção a forma como a iluminação participa diretamente da construção dramatúrgica. A luz não funciona como simples complemento visual da coreografia. Ela organiza atmosferas, sugere direções emocionais e interfere na percepção do movimento. Há momentos em que música, corpo e iluminação parecem indivisíveis.

Talvez o aspecto mais interessante da experiência proposta pelo Grupo Corpo esteja justamente na recusa em oferecer respostas prontas. Nem tudo se compreende imediatamente, e talvez essa nem seja a intenção. Existe um certo desconforto em não encontrar significados claros, mas é justamente desse espaço de incerteza que nasce a força da companhia.

Num tempo marcado pela dispersão e pela necessidade constante de estímulo imediato, o Grupo Corpo parece exigir exatamente o contrário: permanência, atenção e disponibilidade para sentir antes de compreender. Talvez seja essa a razão de sua permanência artística provocar impacto ainda tão raro.

Por Mauro Senna


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