Pinóquio

 

Uma obra que aposta na beleza controlada, na narrativa acessível e em uma atmosfera de encantamento constante, ainda que isso, por vezes, atenue suas tensões mais profundas.

Inspirado na obra original de Carlo Collodi, frequentemente eclipsada no imaginário popular por adaptações posteriores como a de Walt Disney em 1940, o filme assume sua liberdade criativa ao redesenhar personagens e relações. O roteiro, assinado por Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev, opta por reorganizar figuras clássicas sob novas leituras, enquanto a produção, que reúne nomes como Fedor Bondarchuk, sustenta a ambição estética do projeto com evidente apuro técnico.

Desde os primeiros minutos, o que se impõe é o rigor estético. Cenários amplos, figurinos meticulosamente desenhados, visagismo preciso e uma paleta de cores harmoniosa constroem um universo de grande coesão visual. Há um desejo evidente de maravilhar o espectador, e em muitos momentos isso se realiza com eficácia. No entanto, essa mesma perfeição visual parece reduzir o atrito da narrativa, como se tudo tivesse sido cuidadosamente suavizado para não desafiar a sensibilidade do público.

Pinóquio surge como o centro dessa construção, uma figura cuja estranheza poderia funcionar como eixo de ruptura, mas que aqui é tratada com uma delicadeza quase contemplativa. Em suas primeiras interações com o mundo, não há choque, mas assimilação. Essa escolha reforça o tom de fábula e aproxima o personagem de uma experiência mais sensorial do que conflituosa, ainda que, com isso, a narrativa abdique de tensões mais incisivas.

A estrutura do filme reforça essa impressão. Em vez de uma progressão contínua e crescente, a história se organiza em episódios relativamente autônomos, quase como vinhetas encadeadas. A jornada se constrói por encontros, desvios e influências externas, muitas vezes guiadas por figuras inescrupulosas que conduzem o protagonista por caminhos marginais. Essa fragmentação, embora fluida, dilui a sensação de urgência e transforma o percurso em uma travessia mais observacional do que inevitável.

Entre os momentos mais expressivos está o teatro de Karabas Barabas. Ali, o filme parece ganhar densidade simbólica. O espaço funciona como uma metáfora de controle e fabricação de identidades, em que tudo é performance e nada escapa completamente da encenação. É um dos raros trechos em que a obra sugere uma camada mais crítica sob sua superfície encantadora, ainda que não explore plenamente esse potencial.

A música cumpre um papel ambivalente ao longo do filme. Em certos momentos, amplia a emoção e reforça a imersão, funcionando como um elo sensorial entre as cenas. Em outros, parece ocupar o espaço que poderia ser preenchido por conflitos mais desenvolvidos, suavizando o impacto de situações que pediriam maior densidade dramática.

O tema do pertencimento é apresentado de forma clara, mas o que se impõe com mais força é a ideia de formação. A condução de Pinóquio por agentes externos, muitas vezes oportunistas e moralmente questionáveis, evidencia o quanto sua trajetória é moldada por influências que testam sua integridade. Não se trata apenas de tornar-se algo, mas de compreender o que define essa transformação.

É nesse ponto que a obra encontra sua camada mais relevante. Diferentemente da consagrada versão de Pinocchio, que materializa a metamorfose do boneco em menino, esta releitura sugere que a humanidade não se estabelece pela matéria, mas pelos valores. Caráter, dignidade e ética emergem como fundamentos dessa transição, deslocando o eixo da transformação do físico para o essencial.

No conjunto, trata-se de uma produção que se destaca pelo acabamento e pelo cuidado em cada elemento de sua construção. Elenco, cenografia, figurino, trilha sonora e direção de arte operam em harmonia, sustentando um universo coeso e visualmente envolvente. Mais do que emocionar, o filme convida à reflexão, encontrando sua força não no impacto imediato, mas na permanência de suas ideias.

Embora já circule em alguns mercados internacionais e plataformas, a disponibilidade do filme no Brasil ainda se mostra incerta, o que pode limitar seu alcance imediato por aqui, uma pena para uma obra que, mesmo em sua abordagem mais contida, oferece uma leitura contemporânea e consistente de um clássico atemporal.

Pinóquio, aqui, deixa de ser apenas a história de um boneco que deseja tornar-se menino. Torna-se, sobretudo, um percurso sobre o que significa, de fato, tornar-se humano.

 

Por Mauro Senna


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