Patota: Entre o samba a mesa e a cidade que pede passagem

 

Onde a Rua Felipe Camarão encontra o Boulevard 28 de Setembro, o olhar não atravessa, ele desacelera. Há algo naquele encontro de vias que não se impõe de imediato, mas se revela aos poucos, como se o espaço pedisse um segundo instante de atenção.

A edificação de esquina, marcada por traços que remontam ao final do século XIX e início do XX, já não preserva integralmente sua forma original. Ainda assim, sustenta vestígios suficientes para sugerir o que foi e, sobretudo, o que permanece, mesmo quando o tempo insiste em reconfigurar suas superfícies.

Diante desse ponto, o percurso se abre em possibilidades. À esquerda, o Boulevard segue seu fluxo natural, conduzindo o caminhar por uma das mais emblemáticas avenidas de Vila Isabel. Em frente, a Rua Felipe Camarão avança em direção à Praça Maracanã, insinuando um eixo de continuidade urbana ainda pouco explorado. Há também uma terceira escolha, menos evidente e mais reveladora: interromper o deslocamento e reconhecer ali um ponto que, há anos, ensaia se afirmar como lugar de encontro.

É nesse intervalo entre o ir e o ficar que o entorno começa a se revelar. Sob os passos, chão deixa de ser apenas passagem e passa a narrar. As pedras portuguesas   desenham, em preto e branco, a partitura de Cidade Maravilhosa, como se a música não estivesse apenas na memória do bairro, mas inscrita na própria paisagem.

A poucos metros, o samba ganha corpo em imagem. O mural dedicado a Martinho da Vila evoca Kizomba, Festa da Raça e projeta no espaço urbano uma memória coletiva que atravessa gerações, não como ornamento, mas como permanência cultural.

Nesse contexto, o edifício que abriga o PATOTA deixa de ser apenas um ponto comercial e passa a integrar um sistema mais amplo de significados, onde arquitetura, música, memória e cidade se entrelaçam. A poucos passos, a Praça Maracanã surge como extensão possível dessa experiência, ainda subaproveitada, mas carregada de um potencial que parece aguardar o mesmo gesto de reconhecimento.

Ao chegar ao número 20 do Boulevard 28 de Setembro, na tarde de Dia de São Jorge, a dupla de jornalistas encontra um acesso que já indica que a experiência ultrapassa o limite da calçada. A recepção organiza o fluxo de entrada e conduz, com naturalidade, até a mesa reservada, enquanto a casa se preenche gradualmente.

 Ao lado do acesso, o Grupo Diz no Pé recebe o público com uma roda de samba que não apenas ambienta, mas envolve. O som se espalha de forma orgânica, como extensão natural da paisagem cultural já percebida no entorno.

Uma vez sentados, a percepção do espaço se impõe quase automaticamente. O ambiente interno se organiza em dois segmentos longitudinais, estruturados a partir de um eixo central onde o bar se estabelece como elemento de articulação e protagonismo.

É ali que a dinâmica da casa se revela com mais clareza. Entre o preparo de drinks e o serviço contínuo de chopp, o bar assume o papel de núcleo operativo, conduzido por uma coreografia precisa, ritmada pelo fluxo constante de pedidos e entregas. Ao redor desse eixo, garçons e garçonetes circulam entre o bar e as mesas, conectando o movimento interno ao público, envolvido não apenas pelo que consome, mas pelo que vivencia.

No fundo do segmento à esquerda, o espaço dedicado às crianças, o PATOTINHA, oferece acolhimento sob a supervisão de recreadores, ampliando a experiência para quem chega em família. Simetricamente, ao lado direito do bar, os bastidores se organizam de forma discreta, funcionando como coxias de onde emergem os garçons, sustentando o ritmo contínuo do serviço. É também nesse ponto que a cozinha se articula, operando fora do campo direto de visão, sem interferir na fluidez do ambiente.

Logo após a acomodação, o acolhimento se estende à mesa. Chopp servido e um prato de aipim frito, no ponto exato, marcam o início da experiência com simplicidade e precisão. É nesse momento que a presença dos sócios se revela.

Jener Tonasso e Romildo Junior surgem como extensões naturais do que o espaço propõe. Amigos de longa data, trazem na trajetória profissional a base que sustenta a organização e a clareza do empreendimento. A decisão de formalizar a parceria nasce desse encontro entre experiência e afinidade, e encontra síntese em um detalhe que se impõe com discrição e significado.

Em destaque no ambiente, um chapéu branco com faixa verde do GRES Império Serrano funciona como símbolo inaugural, conectando pertencimento, cultura e trajetória. Mais do que objeto, ele atua como registro silencioso de uma identidade que antecede e sustenta o que hoje se apresenta como experiência consolidada.

Do lado de fora, a ocupação da calçada amplia essa lógica de integração. Sobre as pedras portuguesas que desenham a partitura de Cidade Maravilhosa, de André Filho, o espaço externo se estabelece como extensão natural do interior, sem ruptura.


O público que ocupa esse conjunto não se apresenta exatamente como eclético. Há uma direção perceptível, ainda que não declarada. Um público que se reconhece na combinação entre feijoada, Dia de São Jorge e roda de samba, como eixo de convergência que não limita, mas define uma identidade momentânea.

Entre as mesas, a dinâmica se constrói de forma espontânea. Pessoas sentadas ou em pé, em grupos ou sozinhas, bebem, comem, conversam, acompanham a música, cantam. As mesas deixam de ser unidades isoladas e passam a se comunicar entre si, compondo um organismo coletivo em que todos participam de forma ativa.

É nesse ambiente já tomado por movimento e som que a feijoada se apresenta como eixo da experiência. À mesa, a composição se revela com cuidado quase cenográfico. Arroz, couve mineira, farofa, rodelas de laranja e torresmo se distribuem com equilíbrio, formando uma imagem que antecede o paladar.

Separadamente, o pote de barro concentra a essência do preparo. O feijão preto chega no ponto, com caldo na medida exata para acolher cortes selecionados de carnes e linguiça, equilibrando intensidade e conforto. Ao redor, o serviço de chopp e caipirinha, oferecidos com liberdade, amplia a experiência sensorial, articulando bebida e comida em um mesmo campo de permanência.

A feijoada deixa, então, de ser apenas refeição e se afirma como linguagem. Ela reúne tradição, técnica e convivência em uma construção que transforma memória em experiência compartilhada.

Ao final, o que se estabelece não se limita ao interior do PATOTA. O percurso iniciado no cruzamento, atravessado pela música inscrita no chão, pelos signos culturais do entorno e pela ocupação viva do espaço, aponta para algo que ultrapassa a experiência pontual.

A proximidade com a Praça Maracanã revela um potencial ainda não plenamente explorado. A continuidade entre rua, calçada e convivência sugere uma vocação urbana evidente. Transformar esse trecho em área prioritariamente destinada a pedestres, integrando-o de forma efetiva à dinâmica da praça, não se apresenta como intervenção, mas como desdobramento lógico do que já se manifesta.

O que hoje se observa como experiência bem-sucedida pode, com o devido reconhecimento, consolidar-se como modelo de requalificação urbana, onde cultura, convivência e cidade passam a operar como um sistema contínuo

por mauro senna

fotos: msenna 


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