Festival Queremos! no Teatro João Caetano/RJ

 

O Festival Queremos! ocupa, há anos, um lugar singular na cena carioca ao propor encontros musicais que transitam entre o consagrado e o emergente, distribuídos por espaços emblemáticos da cidade. Mais do que uma programação, trata-se de uma curadoria que aposta na escuta como experiência. E foi justamente essa escuta que esteve em jogo na noite apresentada no Teatro João Caetano.

A abertura, com Gabriele Leite, revelou um descompasso inquietante entre palco e plateia. O que se desenhava como um momento de recolhimento quase camerístico foi atravessado por um público que chegava aos poucos, conversava, circulava e ignorava a delicadeza da execução. Um ruído que não era técnico, mas ético. Ainda assim, a artista permaneceu.

Sozinha em cena, sustentada apenas por seu violão e pela presença firme, Gabriele Leite construiu uma apresentação de rara integridade. Sua relação com o instrumento ultrapassa a técnica e se inscreve no corpo, no gesto e na expressão. Há uma narrativa silenciosa em suas feições, complementada por uma fala doce e precisa, que contextualiza sua trajetória até Nova York, de onde acaba de retornar. Não se trata de didatismo, mas de partilha.

O repertório, que percorre nomes como Heitor Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga, não busca reinvenção, mas fidelidade. E essa escolha revela maturidade. Cada nota parece reorganizar o espaço, conduzindo gradualmente a plateia a um estado de atenção que antes não existia. Mesmo os mais dispersos são, pouco a pouco, convocados à escuta.

Há momentos em que seu violão se expande, como se abrigasse outros instrumentos. Em outros, assume a cadência de um sete cordas, ampliando a densidade sonora. Gabriele é sua própria regente. Sua presença não confronta o ruído, mas o atravessa com consistência.

A escolha da produção se revela precisa. Mais do que abrir a noite, Gabriele Leite prepara o terreno. Não apenas aquece o público, mas educa a escuta. Sua apresentação se impõe como um gesto de resistência estética diante de um ambiente inicialmente adverso.

Um intervalo de quinze minutos foi suficiente para a chegada discreta de Caetano Veloso à plateia. Sem alarde, ocupou seu lugar como qualquer espectador, ainda que inevitavelmente cercado por olhares, registros e abordagens que confundem admiração com intimidade.

Na sequência, Zeca Veloso assume o palco com uma simplicidade que não é ausência, mas escolha. Há traços de uma linhagem evidente, mas o que se constrói em cena é um caminho próprio. Sua presença se afirma na medida em que se distancia da expectativa de comparação.

A banda sustenta a apresentação com vigor e precisão, elevando o espetáculo a uma dimensão que dialoga com grandes formações. Em contraste, a plateia permanece mais contida, em descompasso com a potência artística apresentada.

Zeca constrói sua performance em movimento contínuo. Transita pelo palco, alterna instrumentos, ajusta o figurino, aproxima-se da plateia e retorna ao centro da cena com naturalidade. Nada parece coreografado, mas tudo responde a uma lógica interna consistente. Seu violão é conduzido com delicadeza, abrindo espaço para falsetes que se projetam como marca expressiva de sua identidade.

Não se trata apenas de escuta, mas de observação. Há um prazer evidente em acompanhar sua presença, seu gestual, sua forma de ocupar o espaço. Em diversos momentos, o que se afirma é uma identidade que reconhece sua origem, mas não se submete a ela.

 A iluminação cênica acompanha essa construção, ampliando a dimensão performática de um artista que arrisca movimentos, alterna registros e conduz o espetáculo com segurança.

O saldo da noite se traduz em duas apresentações profundamente envolventes. Uma prepara, a outra expande. Há um efeito residual que ultrapassa o tempo do espetáculo, instaurando um silêncio preenchido por emoção contida. Permanece a sensação de plenitude, como se os sentidos tivessem sido convocados a organizar, decantar e transformar a experiência em memória viva.

 

 

 

 

Por Mauro Senna

Fotos: MSENNA 


Comentários

Postagens mais visitadas