Uma Vida em Cores
Uma Vida em Cores é o tipo de espetáculo que chega sorrindo e permanece assim até o fim. Há leveza, há charme, mas também uma sensação constante de controle.
A proposta é sedutora. Um encontro entre gerações, mediado por uma figura inspirada em Iris Apfel, empresária, designer de interiores e ícone de estilo norte-americana conhecida por sua personalidade irreverente e por desafiar padrões estéticos ao longo de décadas, promete contraste, tensão e descoberta. No entanto, o que se vê é um diálogo que evita o conflito. Em vez de confronto, há conciliação quase imediata.
A jovem jornalista entra em cena com urgência. Precisa provar seu valor. Esse ponto de partida cria expectativa dramática. Ainda assim, o embate se dissolve cedo demais. As divergências não se aprofundam. Tudo se resolve com rapidez, como se houvesse receio de criar desconforto.
A personagem mais velha também perde força nesse processo. Em vez de revelar contradições, surge como uma figura já resolvida. Suas falas soam lapidadas, prontas para efeito. Faltam pausas, hesitações, falhas. Falta humanidade.
Esse excesso de acabamento enfraquece o impacto. Quando tudo parece pensado para funcionar, pouco surpreende.
No elenco, Rosamaria Murtinho sustenta presença e densidade, carregando consigo não apenas a personagem, mas uma trajetória que naturalmente mobiliza o público. Há um evidente respeito da plateia por sua história, e é nesse território que o espetáculo encontra parte de sua força. Ainda que a atuação já não se permita os mesmos registros de outrora, há ali uma entrega digna, consciente de seus limites e apoiada em um texto que, em muitos momentos, parece moldado para acolhê-la.
Nos instantes em que escapa desse contorno mais rígido, a cena respira e se aproxima de algo mais verdadeiro. Já Sofia Mendonça traz frescor, mas sua personagem permanece limitada, com pouca margem para erro, dúvida ou contradição. A presença da jovem atriz, assim como a inserção de uma terceira figura em cena, amplia a ideia de convivência geracional, ainda que nem todos esses elementos se justifiquem plenamente no desenvolvimento dramático.
A direção de Cacau Hygino aposta na clareza. A encenação é limpa, organizada e eficiente. Cenário e figurinos dialogam com a proposta estética e funcionam bem dentro de uma lógica intimista, embora ocupem um espaço cênico mais amplo do que o necessário. No entanto, essa organização reduz o risco. Não há rupturas formais, nem desvios de linguagem. Para um espetáculo que se ancora na ideia de liberdade estética e de vida, a forma se mantém surpreendentemente contida.
O resultado emociona, mas dentro de limites seguros. O público, majoritariamente formado por espectadores que reconhecem e celebram a trajetória da protagonista, se envolve, mas raramente é desafiado.
Ao final, fica uma sensação agradável, sustentada mais pelo afeto e pelo respeito do que pela força da encenação em si. Ainda assim, surge uma questão inevitável: onde está a inquietação?
Porque viver com intensidade não é apenas construir imagens bonitas. É também expor falhas, sustentar contradições e aceitar o desconforto.
E, neste caso, essa dimensão permanece mais sugerida do que plenamente vivida em cena.
Por Mauro Senna



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