Manual Prático da Vingança Lucrativa

 

Manual Prático da Vingança Lucrativa se apresenta como um projeto consciente da tradição que invoca ao buscar inspiração em Kind Hearts and Coronets, conhecido no Brasil como As Oito Vítimas. A tentativa de transpor a elegância aristocrática e o humor macabro do clássico britânico para uma Nova York contemporânea, recriada na Cidade do Cabo, revela ambição formal e desejo de sofisticação. No entanto, a operação não ultrapassa o plano da aparência. A cidade artificial, ainda que visualmente sedutora, produz um deslocamento que espelha o próprio filme: tudo funciona como superfície bem composta, mas raramente como experiência moral consistente. A crítica à elite está presente, porém diluída em estilização e ironia calculada, reduzida a um comentário ornamental que evita confrontar as implicações éticas da ascensão construída sobre fraude, manipulação e oportunismo.

O diretor opta por uma sátira estilizada, fria e meticulosamente calculada. A escolha, em tese promissora, resulta em um distanciamento que impede o envolvimento pleno do espectador. A crítica social está ali, mas opera na superfície. Figurinos impecáveis e iluminação refinada constroem um universo de sofisticação visual que raramente se converte em densidade dramática ou contundência moral. A forma seduz; o conteúdo, nem sempre acompanha.

Se há um campo em que o filme demonstra domínio absoluto, é o da construção imagética. A fotografia é irrepreensível, compondo quadros de glamour quase publicitário. A progressão etária do protagonista Becket é delineada com minúcia, acompanhando o amadurecimento de seus traços com precisão quase escultórica. O trabalho digital que sustenta essa transformação revela apuro técnico notável, especialmente nas fases intermediárias de sua juventude. O ambiente reforça esse desenho: uma juventude dourada, formada por herdeiros e aspirantes a herdeiros, orbitando um universo onde o capital é não apenas herança, mas identidade. Trata-se de um glamour que encobre a esterilidade social de um clã cuja maior contribuição é perpetuar privilégios e alimentar o culto ao acúmulo.

No centro da narrativa, Glen Powell compõe Becket com uma frieza quase burocrática. A transformação do personagem é desenhada como gradual, mas jamais plenamente convincente. Não se trata de um psicopata fascinante nem de um estrategista cuja inteligência perversa provoque admiração ambígua; o que emerge é um homem movido por ressentimento, que converte frustração em cálculo com eficiência mecânica, porém sem tensão dramática ou poder de sedução narrativa. A tentativa de tratar a sociopatia como procedimento administrativo possui interesse conceitual, mas a execução carece de intensidade, resultando em previsibilidade e monotonia emocional.

Essa rigidez ganha contraponto na estrutura intercalada pelo diálogo entre o condenado e o padre, instantes antes da execução. A narrativa retorna reiteradamente a esse presente suspenso, criando pausas estratégicas que reorganizam a progressão dos acontecimentos. O recurso fragmenta o tempo e desloca a responsabilidade do julgamento. Em alguns momentos, a figura do sacerdote parece migrar simbolicamente para a plateia, como se cada espectador fosse convocado a avaliar as ações de Becket; em outros, permanece-se na posição de testemunha silenciosa, observando o embate como num confessionário que antecede o fim inevitável. Essa oscilação entre cumplicidade e distanciamento constitui um dos elementos mais instigantes do filme, ainda que nem sempre plenamente explorado em sua potência ética.

Margaret Qualley imprime magnetismo à tela, ainda que sua Julia permaneça confinada aos limites do arquétipo. A promessa de sofisticação e domínio raramente ultrapassa o contorno da femme fatale funcional ao roteiro. Topher Grace investe na autoparódia, mas o exagero do personagem, desprovido de sustentação dramática consistente, frequentemente soa artificial. Ed Harris acrescenta gravidade às cenas que ocupa; ainda assim, sua presença não é suficiente para equilibrar as oscilações tonais e o ritmo irregular que atravessam o filme.

O problema central talvez resida menos nas performances isoladas e mais na incapacidade do conjunto de sustentar a ambiguidade que propõe. Ao optar por uma sátira fria e estilizada, o filme constrói um jogo moral em que o julgamento é sugerido, mas raramente aprofundado. O resultado é uma obra tecnicamente elegante, estruturalmente interessante em seus retornos ao presente da cela, porém dramaticamente contida demais para que a punição final reverbere com a força trágica que o dispositivo promete.

Quando os créditos começam a subir, a narrativa parece finalmente encontrar a pulsação que lhe faltara. A escolha de “Take Me Back to Piauí”, do menestrel Juca Chaves, opera como comentário tardio e inesperadamente contundente. Não há concessão a um final redentor. O contraste entre caviar e champagne e a vida agreste evocada pela canção desloca o eixo da sátira e amplia seu alcance moral. A ironia do retorno ao Piauí expõe o vazio do luxo como projeto absoluto e transforma o que parecia apenas estilização em comentário cultural mais amplo.

Ao evocar figuras como Hebe Camargo e Wilson Simonal, a música reinsere memória e identidade no debate, contrastando a sofisticação artificial da Nova York recriada na Cidade do Cabo com uma brasilidade irônica e afetiva. Se o filme hesita em aprofundar sua crítica moral ao longo da narrativa, os créditos a resgatam por via oblíqua. A canção funciona como fecho ético, oferecendo a contundência que o roteiro apenas insinuava.

Talvez resida aí a dimensão mais interessante de Manual Prático da Vingança Lucrativa: não na trajetória calculada de seu protagonista, mas na fricção cultural que emerge quando o luxo encenado encontra a memória popular que o ironiza. O cinema termina. A música permanece. E é nesse eco que a crítica, enfim, se completa.

Por Mauro Senna


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