A Sabedoria dos Pais
Antes mesmo de se ouvir a primeira fala, A Sabedoria dos Pais já se anuncia fora da sala de espetáculos. A fila que serpenteia pelas circulações do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, rumo ao Teatro Vannuci, não é apenas um dado logístico, mas um indício claro de pertencimento. Há ali um público que reconhece os nomes em cartaz, que carrega memórias acumuladas ao longo de décadas e que se dispõe a ocupar aquele espaço menos para ser provocado do que para se sentir acolhido. O teatro, nessa noite de 24 de janeiro de 2026, começa na espera.
Esse encontro antecipado diz muito sobre o espetáculo que se seguirá. Não se trata de uma obra interessada em ruptura ou choque, mas em reconexão. Com o riso conhecido, com o tempo vivido, com a sensação confortável de acompanhar uma história que não exige do espectador mais do que atenção, escuta e disponibilidade afetiva. É nesse pacto silencioso entre palco e plateia que A Sabedoria dos Pais se estabelece, e é a partir dele que a peça deve ser observada.
A Sabedoria dos Pais se apresenta como um projeto de convergência. Texto escrito sob medida, direção autoral, dois intérpretes com capital simbólico acumulado ao longo de cinco décadas e um circuito exibidor que privilegia conforto, reconhecimento e adesão imediata do público. Nada aqui é inocente, e é justamente por isso que a peça merece ser analisada sem indulgência.
Miguel Falabella domina como poucos a comédia de costumes afetiva no teatro brasileiro contemporâneo. Seus textos combinam diálogo fluente, engenharia dramatúrgica clássica e apelo direto à memória emocional do espectador médio urbano, majoritariamente formado pela televisão. Em A Sabedoria dos Pais, essa filiação é assumida como método e como mercado. A dramaturgia é clara e de fácil decodificação, construída em arcos reconhecíveis, com conflitos explícitos e resoluções cuidadosamente planejadas.
A peça acompanha um casal ao longo de uma década após a separação, saltando no tempo sem riscos estruturais. O ritmo é seguro, calibrado para manter o público confortável. A alternância entre humor e melancolia segue um padrão familiar. Piadas sobre gerações, observações sobre envelhecimento, ironias sobre solidão e reaprendizado amoroso. Nada soa improvisado ou realmente arriscado.
O maior trunfo da montagem, e também seu limite, está no elenco. Natália do Vale e Herson Capri carregam para o palco uma intimidade real, construída ao longo de décadas de convivência profissional e afetiva. Essa cumplicidade sustenta a cena quando o texto se torna previsível. Natália trabalha o silêncio e a escuta com precisão rara, impondo presença sem excessos. Herson, expansivo e tecnicamente refinado, sustenta o galanteio amadurecido que o público reconhece e celebra. Há algo de profundamente digno na forma como ambos envelheceram em cena e fora dela, e isso atravessa a experiência do espetáculo de maneira decisiva.
Essa maturidade interpretativa suaviza conflitos que poderiam ser mais ásperos. O casal em crise nunca chega a incomodar de verdade. A separação, embora apresentada como ruptura, é tratada com delicadeza. A dor existe, mas é sempre elegante. O ressentimento aparece, mas não se aprofunda. A peça privilegia conciliação e afeto em vez de fratura e contradição. Trata-se de uma escolha consciente, ainda que conservadora.
Tematicamente, a obra aborda etarismo, reinvenção e amor maduro sem recorrer a discursos panfletários, mérito incontestável. Ainda assim, a reflexão permanece no território do reconhecimento, não da descoberta. As referências parentais funcionam mais como metáforas reconfortantes do que como motores dramatúrgicos complexos. A sabedoria evocada no título confirma valores já assimilados pelo público, em vez de colocá-los em crise. Não há revisão crítica da instituição familiar, apenas sua reafirmação humanizada.
Do ponto de vista estético, a encenação é funcional e coerente com essa proposta. Cenografia, iluminação, figurino e recursos audiovisuais cumprem seu papel com discrição, estimulando a imaginação do espectador sem disputar protagonismo com o texto ou os atores. Tudo serve à história, nada a desafia. A direção de Falabella privilegia clareza e fluidez, qualidades que garantem conforto e continuidade, mas também reforçam a previsibilidade do conjunto.
No contexto histórico e mercadológico, a peça se insere com precisão no teatro comercial carioca contemporâneo. Espetáculos estrelados, de temática afetiva e fácil assimilação, encontram um público fiel que busca identificação, não confronto. A Sabedoria dos Pais sabe exatamente a quem fala e o que oferece. Não subestima o espectador, mas tampouco o provoca além do necessário.
A ambição artística é modesta, porém honesta. Emocionar, divertir e legitimar o tempo vivido. Quando acerta, impressiona pela precisão do ofício. Quando falha, revela excesso de cautela. Trata-se de um teatro que não deseja dar trabalho ao público, mas acompanhá-lo em uma travessia suave, quase terapêutica.
A Sabedoria dos Pais é, portanto, um espetáculo competente, afetuoso e profissional, sustentado por intérpretes de alto nível e por um autor-diretor que conhece profundamente os mecanismos do entretenimento teatral. Funciona plenamente dentro do que se propõe. O que se lamenta é que, com artistas tão experientes e um tema tão fértil, a peça escolha a segurança da memória em vez do risco da invenção. Ainda assim, para a plateia que lota o Teatro Vanucci noite após noite, talvez essa escolha não seja uma limitação, mas exatamente o que a levou até ali.
Por Mauro Senna



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