"Tenente Seblon" e o "Marginal Genet"

 

Uma noite no Teatro Cândido Mendes

Tenente Seblon (20h) e O Marginal Genet (22h)
Temporada no Teatro Cândido Mendes, Ipanema | de 10 janeiro a 8 de fevereiro de 2026

Antes mesmo de qualquer consideração estética, o Teatro Cândido Mendes impõe-se como um dado incontornável da experiência. O odor persistente, as poltronas deterioradas, com espuma exposta pela evidente ausência de manutenção, e a sensação geral de abandono não são detalhes periféricos, mas interferências diretas na fruição do que se apresenta em cena. O espaço teatral também comunica. Aqui, comunica desgaste, negligência e um desconforto que antecede a própria obra.

Essa atmosfera atravessou as duas sessões da noite e acabou funcionando como um prólogo involuntário para espetáculos que, cada um à sua maneira, apostam no excesso, na confrontação direta e na exposição reiterada do corpo e do desejo. Ao longo da noite, o que se impõe não é a força da provocação, mas a insistência no excesso, como se falar alto, mostrar demais e reiterar o choque ainda fossem garantias de pensamento crítico.

Tenente Seblon (sessão das 20h)

O encontro entre o tenente Seblon e o marginal Genet não se configura como epifania teatral, mas como um desfile de vaidades mascaradas de profundidade. Seblon surge como a vitrine clássica da virtude institucional: farda impecável, discurso de controle, aparência de autoridade moral. Sob essa superfície rígida, acumulam-se medos, desejos mal resolvidos e uma fragilidade que o texto apenas tangencia, sem jamais aprofundar.

Concebido em outro tempo histórico, o texto carrega a marca de um embate simbólico que hoje soa esvaziado. A hierarquia como bastião da ordem e a marginalidade como gesto automático de rebeldia são colocadas em oposição, mas raramente problematizadas. O conflito se estabelece mais no plano da declaração do que da reflexão, mais na afirmação de posições do que na investigação de suas contradições.

A direção opta por um caminho frontal, sem mediações ou sutilezas. A provocação parece ser o principal motor da encenação, seja pelo uso reiterado do nu explícito, seja pela intensidade gestual imposta aos intérpretes. Quando o choque se transforma em método único, a cena perde gradação, e a provocação deixa de ser gesto político para se tornar recurso automático, previsível, quase protocolar.




O Marginal Genet (sessão das 22h)

Inspirado na figura e na obra de Jean Genet, escritor cuja literatura nasce da exclusão, da prisão e do confronto com a moral burguesa, o espetáculo parte de um imaginário potente, mas o reduz a uma superfície estereotipada. Genet não aparece como pensador radical da linguagem e do desejo, mas como caricatura de uma marginalidade performada, mais estética do que política.

A encenação insiste na erotização explícita como se ainda fosse, por si só, um gesto subversivo. No entanto, em um contexto contemporâneo saturado de imagens e discursos sobre o corpo, a nudez já não provoca deslocamento automático. Em vez disso, encontra um público que reconhece seus códigos e os consome sem fricção. A transgressão anunciada se dilui na previsibilidade, e o que deveria inquietar passa a confortar pelo reconhecimento.

Atuações e linguagem cênica

O elenco atua de forma frenética, com gestualidade excessiva e pouca contenção dramatúrgica. Vinícius Moizés tenta humanizar a autoridade; Thiago Brugger investe na glorificação da marginalidade. Ambos demonstram entrega, mas a intensidade constante, sem variação de registro, transforma a atuação em ruído contínuo, e o excesso de gesto passa a ocupar o lugar onde deveria existir pensamento.

A iluminação é funcional, sem desenho expressivo, e a cenografia poderia ser reduzida a um fundo neutro sem prejuízo simbólico, talvez até com ganho. A trilha sonora praticamente inexistente e o uso descompassado de efeitos, como a máquina de fumaça, reforçam a sensação de precariedade conceitual, mais do que qualquer proposta estética deliberada.

Considerações finais

As duas montagens se anunciam como propostas de confronto, reflexão e inclusão, mas acabam presas a uma lógica de choque já esvaziada. O que poderia provocar debate termina por gerar cansaço, não pela ousadia, mas pela insistência em soluções fáceis, explícitas e pouco elaboradas.

Ao final, resta a sensação de que as obras falam muito, mostram demais e dizem pouco. E isso, para espetáculos que se pretendem instrumentos de reflexão e inclusão, talvez seja o silêncio mais eloquente.

Por Mauro Senna


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