Marty Supreme
Uma leitura alternativa de Marty Supreme parte do questionamento da empatia que o filme constrói em torno de seu protagonista. Em vez de consagrar um anti-herói carismático, a obra pode ser entendida como um retrato incômodo das patologias morais e simbólicas que sustentam o mito da ascensão individual. O filme não nos convida simplesmente a torcer por Marty Mauser, mas a reconhecer o quanto somos culturalmente treinados a tolerar, e até admirar, comportamentos eticamente questionáveis quando eles se alinham à fantasia do sucesso.
Esse desconforto se manifesta desde a frase inicial, em que Marty evoca o Holocausto para descrever sua futura vitória esportiva. Mais do que humor ácido ou excesso de confiança, o momento revela a instrumentalização da memória histórica como capital simbólico. Marty não mobiliza o trauma coletivo para refletir sobre ele, mas para gerar impacto retórico, esvaziando seu peso moral em nome da performance. O gesto expõe não apenas sua insensibilidade individual, mas um ambiente social que recompensa a provocação e a audácia mesmo quando estas se alimentam de feridas ainda abertas.
Sob essa perspectiva, Marty deixa de ser apenas um alpinista social e passa a ser visto como um produto previsível de um sistema que promete mobilidade enquanto opera pela exclusão. Sua arrogância não nasce apenas de traços de personalidade, mas da necessidade constante de provar valor em um contexto que o define como insuficiente desde o início. O filme sugere que ele internaliza o desprezo estrutural que sofre como judeu, como atleta de um esporte marginalizado, como jovem sem capital econômico, e o devolve ao mundo sob a forma de cinismo, oportunismo e violência.
É nesse ponto que o problema ético central do filme se torna mais evidente. A questão não é se Marty merece vencer, mas como suas vitórias se constroem sobre uma cadeia de danos normalizados. O assalto, a manipulação emocional, o uso instrumental das relações e a exploração de outros sujeitos igualmente vulneráveis, como os imigrantes ilegais enganados com a ajuda de um taxista preto, compõem um mosaico de sobrevivência predatória. Marty não desafia o sistema. Ele aprende rapidamente a reproduzir suas lógicas mais brutais, ainda que a partir de uma posição subalterna.
Politicamente, o filme parece criticar menos o bloqueio do sonho americano e mais a persistência dessa ideia como ideologia. O verdadeiro jogo manipulado não está apenas nas elites que concentram o poder, mas na crença disseminada de que a única saída é jogar, custe o que custar. Marty não questiona os valores que o oprimem. Ele deseja apenas ocupar o lugar de quem oprime. Sua tragédia não está em ser impedido de ascender, mas em confundir reconhecimento com dominação.
Quando o filme retorna à esfera íntima, especialmente na relação com o filho, o impacto se torna ainda mais incômodo. Marty volta para casa com a mesma precariedade de antes, agora agravada pela responsabilidade de trazer o primogênito para dentro de uma vida sem horizonte real de transformação. Não há ali aprendizado, reparação ou amadurecimento visível. Apenas a reprodução silenciosa de um modelo falido, transmitido como herança. O peso desse vínculo não redime o personagem, tampouco o humaniza plenamente. Ele apenas torna mais evidente o alcance de suas escolhas.
A trilha sonora anacrônica reforça essa leitura ao colapsar temporalidades distintas. Ao utilizar músicas dos anos 80 em um filme ambientado nos anos 50, Safdie não cria apenas tensão emocional, mas sugere que o ciclo de ambição, ansiedade e autoengano se repete historicamente. O efeito quase pavloviano dessas canções prepara o espectador para o alívio do clímax esportivo, mas também revela como o cinema, e a cultura pop de modo geral, nos condicionam a aceitar finais redentores mesmo quando nada foi efetivamente transformado.
Quando o filme se aproxima do conforto narrativo típico dos dramas esportivos, esse movimento pode ser lido menos como concessão ao público e mais como armadilha deliberada. A catarse não resolve os conflitos morais acumulados. Ela apenas os suspende. Marty vence, mas o mundo ao seu redor permanece estruturalmente intacto, e ele próprio surge mais esvaziado do que realizado.
Assim, Marty Supreme não se impõe como um elogio à superação individual, mas como um retrato rigoroso de seus efeitos colaterais. O filme expõe o custo ético de uma crença que insiste em sobreviver mesmo quando já não oferece redenção alguma. Marty vence, mas nada se reorganiza ao seu redor. Não há queda nem coroação. Apenas a continuidade de um jogo que exige vencedores dispostos a pagar qualquer preço, inclusive o de não se reconhecerem mais no próprio reflexo.
Por Mauro Senna



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