Árvore do Rio


Árvore do Rio

Há árvores que apenas se acendem; a da Lagoa, porém, insiste em nos acender de volta. Talvez porque, mesmo envolta em toneladas de metal, fios e cálculos, ela nunca tenha sido só estrutura — sempre foi liturgia. Um rito carioca que se repete sem jamais ser o mesmo, como se a cada dezembro a cidade precisasse reaprender a respirar em coro, devolver ao próprio peito o compasso que o ano dispersou.

Depois de cinco anos adormecida, a Árvore retorna — não como quem volta, mas como quem reaparece de outra dimensão sentimental. Surgem os 60 metros de altura, os 20 quilômetros de LED e Neon Flex, as 140 toneladas que flutuam com a serenidade de quem sabe que sustentar poesia é mais difícil que sustentar vento. E, no entanto, quando a primeira luz desperta, nada ali parece pesado. É como se o Rio, distraído em sua pressa, recuperasse por instantes a vocação de celebrar.

Há algo de improvável — e por isso mesmo comovente — no encontro entre técnica e fé, entre o botão verde no Lagoon e o aceno luminoso ao Cristo no alto do Corcovado. O gesto é quase infantil: apertar um botão e acender um mundo. Mas é justamente nessa ingenuidade ritualizada que mora a força da cena. Personalidades, trabalhadores, crianças, o prefeito, a presidente da Petrobras — todos reduzidos à mesma simplicidade: o ato de acender o que simbolicamente já estava aceso na memória coletiva.

A homenagem a A Noite Estrelada, com suas constelações ascendendo até que o verde se acenda inteiro, faz a Árvore parecer uma espécie de bandeira líquida: brasilidade flutuante, cósmica, suspensa entre a água e o céu. É curioso como um objeto tão monumental consegue ser, ao mesmo tempo, tão íntimo. Como se cada uma das 27 estrelas piscasse para um canto diferente do país, lembrando que o Natal, apesar de urbano e grandioso, é sempre doméstico — cada um carrega o seu.

A coreografia de luzes — quase 50 momentos — é menos espetáculo e mais respiração: pulsa, muda, chama. A cidade, tão habituada a dividir-se entre morro e asfalto, mar e concreto, caos e esplendor, parece se reconciliar temporariamente. Nos parques natalinos, nas feiras, no presépio que recolhe doações como os Reis Magos recolheram presentes, a Lagoa se torna um lugar de passagem que acolhe em vez de dispersar.

Até o Diesel R que alimenta os geradores ganha dimensão simbólica: combustível renovável para iluminar uma tradição que também tenta se renovar, tentando ser fiel ao que importa sem deixar de aprender com o que chega. É poético — e um pouco cômico — que um projeto tão gigantesco seja defendido como “vacina anti-viralatismo”. E talvez seja mesmo: um lembrete de que o Rio, mesmo ferido, continua acreditando em grandiosidades que não pedem desculpas.

No fim, o que se inaugura na noite de 6 de dezembro não é apenas uma árvore: é um intervalo. Uma brecha luminosa na rotina de uma cidade acostumada a correr. Um portal improvisado onde famílias se encontram, crianças miram o impossível, idosos revisitam suas versões anteriores, e cada um, à sua maneira, deposita no silêncio entre um feixe e outro aquilo que ainda deseja preservar.

A Árvore da Lagoa não ilumina apenas a água — ilumina o que nos resta de comum. E, num tempo em que o comum é cada vez mais raro, talvez essa seja a mais improvável e necessária das magias natalinas.

Resneha e Foto: Mauro Senna


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