A Lua Vem da Ásia
Não se trata de um espetáculo confortável. Tampouco deseja sê-lo. A Lua Vem da Ásia apresenta-se como teatro, mas o que se vê é o fragmento inquieto de uma mente em ruínas — cuidadosamente emoldurada por uma estética pretensiosa, daquelas que ainda confundem desconforto com profundidade.
Chico Diaz, senhor absoluto da empreitada, adapta e interpreta o texto com entrega visível e uma intensidade quase devocional. Seu trabalho é visceral, sem dúvida, mas essa visceralidade, ao impor-se de forma tão reiterada, nem sempre consegue ultrapassar a barreira do exercício performativo. Diaz não atua: ele se derrama em cena, numa sucessão de crises, vozes e gestos que buscam dar conta do abismo do personagem. Há densidade técnica em sua entrega, mas também momentos em que o excesso parece autocentrado, mais próximo de um ensaio de virtuosismo do que de uma comunicação genuína com a plateia.
Baseado no romance de Campos de Carvalho, o espetáculo estrutura-se como um diário — recurso que, se por um lado abre possibilidades, por outro transforma-se em um labirinto do qual a encenação não consegue sair. A multiplicidade de nomes do protagonista (Adilson, Leonildo, Astrogildo, Ruy Barbo) poderia sustentar um jogo identitário interessante, mas aqui ressoa como artifício esvaziado, um recurso literário que já não surpreende e, no palco, carece de vitalidade.
A montagem sugere que o confinamento mental do personagem refletiria um aprisionamento social mais amplo. Contudo, essa tentativa de crítica escorrega em generalizações, aproximando-se mais da caricatura do que da alegoria. O desenho de luz de Rodrigo Belay, cuidadoso na intenção de construir uma atmosfera claustrofóbica, reforça o clima com sombras e recortes bem conduzidos. Mas mesmo a escuridão parece excessivamente dirigida, resultando numa ambientação higienizada da loucura — um delírio elegante, mais próximo de uma vernissage do desespero do que de uma experiência verdadeiramente perturbadora.
A trilha original de Alfredo Sertã acrescenta camadas sonoras de interesse, mas seu uso recorrente a torna repetitiva, como se a música precisasse constantemente reiterar ao público a suposta densidade da cena. O recurso acaba funcionando mais como muleta do que como linguagem cênica autônoma.
O trabalho de preparação vocal de Rose Gonçalves, por outro lado, merece destaque. A precisão com que Diaz modula suas vozes internas e alterna registros garante momentos de notável rigor técnico. É, talvez, o aspecto mais convincente da montagem. Ainda assim, mesmo essa conquista acaba por se perder no excesso de intensidade e na autoindulgência que atravessa a interpretação.
Curiosamente, a encenação busca certa leveza em passagens de humor, como se quisesse suavizar a aspereza do material. Mas esse gesto revela mais hesitação do que ousadia. A provocação se torna domesticada, moldada a um teatro seguro, confortável, de plateia numerada e ar-condicionado regulado.
Ao final, o que permanece é a impressão de um espetáculo que aspira urgência, mas se rende a uma sofisticação estéril. A Lua Vem da Ásia oferece um surto esteticamente bem-acabado, mas incapaz de despertar emoção real. A honestidade mais cortante da montagem talvez esteja justamente aí: na constatação de que, apesar da entrega vigorosa de seu intérprete, o conjunto não nos confronta — apenas nos exaure.
Por Mauro Senna
Foto: Circuito Blog
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