Dora, a vida por inventário

 

Os primeiros contatos com Grace Gianoukas aconteceram pelos DVDs da Terça Insana, quando a atriz ainda transitava por palcos alternativos das noites paulistanas, sozinha ou acompanhada, construindo um humor crítico, ácido e irreverente, com alguma coisa de Dercy Gonçalves, um pouco mais recatada, mas igualmente capaz de transformar situações banais do cotidiano em matéria-prima para o riso. Havia as caras e bocas, a gestualidade, a espontaneidade dos textos e, sobretudo, aquelas frases que nem sempre chegavam a ser bordões, mas que se incorporavam à memória e reapareciam, tempos depois, em conversas e situações da vida real, como se pedissem para ser resgatadas. Vieram os DVDs, as apresentações em teatros maiores, a televisão, as novelas e uma trajetória que ampliou sua presença sem jamais exigir dela o abandono daquilo que a tornou reconhecível. Grace pode estar em diferentes personagens, em diferentes palcos e diante de diferentes públicos, mas há algo em sua voz, em seu rosto e em seu gestual que permanece imediatamente identificável. Por isso, a expectativa para Dora era grande. A curta temporada no Teatro dos 4, no Shopping da Gávea, entre 7 e 30 de agosto de 2026, trouxe ao palco uma atriz que muitos espectadores já conheciam antes mesmo de reencontrá-la em cena.

E então Grace se travestiu de Dora. Diante de uma plateia lotada, surgiu a mulher que acumula objetos, lembranças, histórias e conflitos, enquanto verbaliza as pequenas ocorrências condominiais e as relações nem sempre pacíficas com aqueles que vivem ao seu redor. É uma personagem construída para provocar identificação, direta ou indiretamente, porque há alguma coisa de familiar naquela mulher que observa, reclama, interfere, lembra, acumula e, sobretudo, insiste em permanecer agarrada ao que conhece. Thereza Falcão dificilmente poderia ter encontrado uma intérprete mais adequada. Grace domina Dora com a segurança de quem conhece profundamente os mecanismos do humor e sabe exatamente quando uma expressão, uma pausa ou uma inflexão vocal é suficiente para provocar o riso. A direção de Gilberto Gawronski acolhe essa presença sem disputar espaço com ela. O cenário, concebido como uma estrutura cênica efêmera, desmontada ao final do espetáculo e devidamente iluminada contra o fundo infinito negro, funciona menos como ambiente do que como moldura. É Grace quem preenche o espaço. É Dora quem o habita.

Por trás da acumuladora existe uma mulher que passou boa parte da vida acumulando muito mais do que objetos. Acumulou responsabilidades, lembranças, relações, expectativas e uma ideia de si mesma que, em algum momento, deixou de corresponder àquilo que realmente era. A personagem passou a vida acreditando que sabia quem era, até descobrir, quando algumas de suas certezas começam a ruir, que confundiu durante anos aquilo que esperavam dela com aquilo que desejava para si. A tentativa de acomodar essa descoberta dentro de uma dramaturgia que precisa estabelecer princípio, meio e fim nem sempre acompanha os rompantes de Dora. A personagem parece querer escapar da estrutura que a dramaturgia tenta lhe impor, como se suas lembranças, desvios e manifestações não aceitassem facilmente uma trajetória linear. Mas Grace está absolutamente no controle. Sua performance é daquelas que dispensam maiores explicações para quem acompanha sua trajetória há tantos anos. Grace Gianoukas pertence àquela rara categoria de atrizes cuja simples presença em cena já constitui um acontecimento.

O ponto de tensão está menos nela do que naquilo que Dora decide fazer com a comédia. Pouco a pouco, o riso começa a ceder espaço ao drama, e a mulher que parecia existir para fazer rir de suas manias e das desgraças alheias passa a carregar consigo o peso de uma vida que não saiu exatamente como imaginava. Há perdas, frustrações, lembranças que insistem em permanecer e planos de vida que desabaram. Dora olha para o que ficou para trás não apenas porque perdeu coisas, mas porque precisa descobrir o que ainda existe quando aquilo que a definia já não está mais ali. Não porque o drama desqualifique a comédia ou porque Grace deixe de ser extraordinária quando a personagem se torna mais dolorosa. Ao contrário. É justamente a competência da atriz que torna possível essa mudança de registro. Para quem chega ao teatro esperando reencontrar aquela Grace que aprendeu a fazer da vida cotidiana um território de observação e deboche, entretanto, existe uma espécie de desvio de percurso. A comédia que inicialmente parecia ser o destino passa a funcionar como caminho para outra coisa.

É justamente aí que Dora encontra sua provocação mais interessante: a vida real nem sempre tem graça. Grace Gianoukas passou boa parte de sua carreira encontrando a graça escondida nela. Dora, porém, existe no momento em que essa graça começa a faltar. No fim, a personagem dá a volta por cima e retoma o próprio caminho, deixando para trás aquilo que já não pode ser recuperado. Não há como apagar o passado, desfazer escolhas ou reconstruir o tempo. Há, entretanto, a possibilidade de olhar para tudo isso de outro lugar. E essa é a verdadeira transformação de Dora: não mudar a história que viveu, mas finalmente compreender que ainda pode escolher o que fazer com ela.

Dora deixa uma sensação menos eufórica do que a presença de Grace Gianoukas poderia fazer supor e, justamente por isso, mais provocadora. O público chega para reencontrar a atriz que aprendeu a transformar a vida cotidiana em matéria de humor e encontra uma intérprete usando o riso para chegar a um lugar onde o riso já não dá conta de tudo.

Por Mauro Senna


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