Entre 10 de junho e 12 de julho de 2026, o Rio Design Barra,
na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, recebeu a exposição imersiva Klimt e
Gaudí: O Impossível Existe. Desenvolvida pela francesa Culturespaces Studio
e apresentada no Brasil pela Lightland, a mostra integrou as celebrações
internacionais do centenário da morte de Antoni Gaudí e trouxe ao país a mesma
concepção artística apresentada no Atelier des Lumières, em Paris. Para
acolhê-la foi construída uma estrutura temporária de aproximadamente 1.500
metros quadrados, reafirmando uma característica curiosa das grandes
experiências imersivas contemporâneas: quando não encontram uma arquitetura
capaz de recebê-las, elas simplesmente constroem a sua própria.
Talvez esse seja o primeiro gesto artístico da exposição.
Durante séculos, a arquitetura ofereceu abrigo às manifestações da arte.
Igrejas receberam pinturas, esculturas e música sacra; museus nasceram para
preservar o patrimônio artístico; teatros acolheram espetáculos concebidos para
seus palcos. Nas experiências imersivas, porém, essa lógica se inverte. A
arquitetura deixa de ser o ponto de partida para tornar-se parte da própria
narrativa. Quando ela não existe, surge provisoriamente apenas para desaparecer
ao término da temporada. É uma arquitetura efêmera, concebida não para
atravessar gerações, mas para permitir que uma experiência aconteça.
A chegada já anuncia essa mudança de ritmo. Não há filas
disputando os melhores lugares nem a ansiedade típica dos grandes eventos. O
acesso acontece por horários previamente agendados, e pequenos grupos
atravessam discretamente o hall de recepção como quem atende a um convite
silencioso da própria arte. Logo adiante, o espaço se revela. Uma ampla praça
interna se abre diante do visitante e, em seu centro, um grande cilindro
organiza naturalmente o percurso, obrigando todos a contorná-lo antes de descobrir
a totalidade da instalação. Não se trata apenas de um recurso cenográfico. É
uma promenade cuidadosamente construída para que a curiosidade anteceda a
contemplação.
Quando a iluminação diminui e a música passa a ocupar o
ambiente, paredes e piso deixam de existir como simples superfícies
arquitetônicas para se transformarem em matéria viva, sobre a qual fragmentos
das pinturas de Gustav Klimt e das formas concebidas por Antoni Gaudí surgem,
desaparecem, reorganizam-se e voltam a nascer em permanente movimento. Folhas
douradas parecem respirar, mosaicos expandem-se pelo espaço e elementos
arquitetônicos dissolvem seus próprios limites, ocupando completamente o ambiente.
Não se trata da reprodução das obras originais, mas da tentativa de traduzir em
imagem, movimento e música aquilo que elas sempre sugeriram silenciosamente.
Descrever cada sequência seria reduzir a força da
experiência, porque seu verdadeiro significado nasce justamente daquilo que
escapa às palavras. Talvez a percepção mais surpreendente da visita esteja na
maneira como o público passa a integrar a própria instalação. Em museus e
galerias costuma-se esperar que as pessoas saiam da frente das obras para que
nada interfira na contemplação. Aqui acontece exatamente o contrário. As
silhuetas projetadas sobre paredes e piso deixam de ser obstáculos para completar
a composição visual, transformando crianças, adultos e idosos em participantes
involuntários da linguagem criada por Klimt e Gaudí. Pela primeira vez, talvez,
o observador deixa de disputar espaço com a obra para ser acolhido por ela.

Essa inversão revela muito da força das experiências
imersivas contemporâneas. Costuma-se discutir se elas simplificam artistas de
enorme complexidade histórica ou se transformam patrimônio cultural em
entretenimento. A discussão é pertinente. Nenhuma projeção substitui a presença
diante de uma tela original de Klimt, assim como nenhuma instalação reproduz a
experiência espacial de percorrer a Casa Batlló, o Parque Güell ou a Basílica
da Sagrada Família, em Barcelona. Mas talvez essa comparação nunca tenha sido a
pergunta mais importante. Essas experiências não parecem desejar substituir
museus; parecem despertar o desejo de visitá-los. Não competem com a obra
original; funcionam como uma ponte até ela. Ao transformar pintura e
arquitetura em ambiente sensorial, aproximam públicos que talvez jamais
estabelecessem contato com esses artistas, democratizando a curiosidade sem a
pretensão de esgotá-la.
Ao final dos cerca de trinta minutos de projeções, permanece
uma sensação curiosamente familiar a quem já vivenciou outras experiências
imersivas bem concebidas. Não se sai carregando respostas nem procurando
decifrar significados ocultos. Sai-se um pouco mais leve, como se aquele breve
intervalo tivesse suspendido o ruído cotidiano e devolvido algo que a vida
contemporânea insiste em nos retirar: o tempo da contemplação.
Talvez seja esse o verdadeiro impossível anunciado pelo
título da mostra. Não reunir Gustav Klimt e Antoni Gaudí, porque a tecnologia
já tornou isso perfeitamente possível. O verdadeiro impossível continua sendo
encontrar, em pleno século XXI, um espaço onde desconhecidos ainda consigam
permanecer juntos, em silêncio, olhando para a mesma beleza sem disputar
protagonismo. Durante trinta minutos, uma estrutura provisória erguida no
estacionamento de um shopping center conseguiu oferecer exatamente isso. E, ao
fazê-lo, lembrou que a arquitetura, seja ela permanente ou efêmera, continua
cumprindo sua missão mais nobre: não apenas abrigar pessoas, mas criar lugares
onde os olhares possam se encontrar.
Por Mauro Senna
Fotos: MSenna
Comentários
Postar um comentário